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A Armadura de vidro

Junho 30, 2009

Hoje posso medir o quanto chorei…
Hoje posso medir minha luta, minha estranha poesia e meus argumentos convenientes e totalmente aceitáveis (pelo menos para mim e para o meu coração)
Hoje, com uma delicada e mortal sutileza, posso afirmar que tenho em mãos a medida exata de cada instante que me diluí em inúteis sopros de esperança, como a minha própria existência, este álibi de todo amanhecer, detém a paixão que tive e tenho pelos segundos que não me contive e iniciei, mesmo que silenciosamente, um despretensioso papo com Deus, estilo “Jogo da verdade”, só que mal sabe Deus que a etmologia desse jogo remetará apenas as sua perfeição (É que faz parte da gente: fingir uma conquista, teimar com a realidade, inventar uma natureza, acontecer uma verdade mesmo que por alguns fatídicos instantes, e eu, como bom mortal, tive que me encaixar nessa convenção maluca).
Hoje, mesmo com todos os adjetivos que possam cair sobre mim como afiadas lâminas, eu tenho a certeza absurda que valeu cada mancada, cada vexame, cada bobagem que eu deva ter falado sem pensar, cada grito inconsequente, cada gesto incompreensível e todas as tentativas vãs de convencer alguém de que eu estava o tempo todo certo!
E eu estava, sim…
Eu sempre estive o tempo todo certo, apesar da cegueira e dos pedaços que posteriormente e com um imenso peso nos ombros eu precisei juntar, o tempo todo eu estive com a razão absoluta das coisas!
O que começou como um lindo nascer de sol dentro da alma, no final foi como o lírio que é pisoteado pelo tigre.
Hoje, continuo sendo aquele belo lírio que um dia viu sua própria alma se encher de luz por um objetivo e que por ele chorou, tentou, caiu, vibrou, viveu e acima de tudo, lutou com todas as pequenas e grandes forças que lhe são de direito nessa vida.

Hoje eu posso dizer que, um dia, já rasguei meu coração por um sonho…

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. Ithalo Furtado

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Projeto de Prefácio

Junho 23, 2009

Sábias agudezas… refinamentos…

- não!

Nada disso encontrarás aqui.

Um poema não é para te distraíres

como com essas imagens mutantes de caleidoscópios.

Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe

Um poema não é também quando paras no fim,

porque um verdadeiro poema continua sempre…

Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte

não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.

. Mário Quintana

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Sem Explicação

Junho 16, 2009

Queria tratar o mundo e as pessoas como um só, não é possível. Sentimentos, razões, tudo misturado em um conglomerado de confusões. Não tenho ninguém com quem me apegue. Deus virou as costas para todos e os anjos estão ocupados aprendendo novas melodias.

Antes fosse só sonho, quando a realidade vem, ela vem forte! Destrói tudo que acha pelo caminho. Pobres corações que estavam na estrada… Pedacinhos são encontrados em cada parte de uma lembrança. Nem a memória ajuda, teima em queimar e a fumaça trás de volta tudo que queremos esquecer.

Utopia de outrora, o tempo virou inimigo de uma guerra que consegue novos adeptos a cada segundo. Desilusão. Palavra forte?! Mais forte ainda é a dor… Insaciável! Sugadora de nossa voracidade… Resta cair na depressão e esperar, meio que por abiogênese, que surja um novo mundo para nós.

Um dia a dor passa, o céu fica azul, e as noites – apesar de confidentes – são deixadas de lado por um tempo. Triste do poeta, que ainda acha força nesse ciclo vicioso para fugir da realidade em meio a parágrafos.

. Ícaro Uther

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Ícaro

Junho 15, 2009

Antonio José Fontinele

Professor de Literatura e Escritor


O homem deseja. Perfeito. Maravilhoso. Logo a aspiração torna-se realidade. Não realizaremos, individualmente, todos os sonhos (verdade inquestionável). Mas, aqui e ali, de grão em grão, e prontinho: minhas conquistas somadas às conquistas alheias resultam em um emaranhado de incontáveis possibilidades. Como se um gênio da lâmpada realizasse todos os desejos da humanidade, distribuindo-os entre cada um de nós. Fernando Pessoa, em sua obra Mensagem, já anunciava: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. Até mesmo quando Ele não quer, acrescentariam os mais irônicos. Apenas para contrariar o poeta português.

Motivado pelo comentário de um colega professor, resolvi escrever este artigo. De orientação – religiosa, filosófica e psicológica – duvidosa, o mestre arremessou o seguinte comentário, a respeito do acidente aéreo, envolvendo o voo 447, da Air France: “Homem não foi feito pra voar. Se fosse pra voar nascia com asas que nem passarinho”. Passarinho. Titica de passarinho. Pensei. Elaborei. Calei.

O professor em questão ainda acredita que as asas de Ícaro foram destruídas pelo calor. Permanece confuso em descomunal ignorância entorpecida. A falha no funcionamento do Pitot (“O tubo mede a pressão frontal do ar e a compara com a pressão que entra por orifícios laterais.”), provocada pelo gelo que impede a entrada do ar, é considerada a causa mais provável da queda do Airbus. Bastaria que meu imprudente colega de profissão assistisse ao filme Homem de Ferro (Iron Man), para que a ingenuidade literária fosse substituída pela realidade científica. Ao tentar voar cada vez mais alto, tal qual o filho de Dédalo, Tony Stark, interpretado por Robert Downey Jr., é surpreendido pelo congelamento da armadura. O problema será solucionado logo nas cenas seguintes. Atitude que a Air France não tomou, mesmo consciente de problemas semelhantes registrados em algumas aeronaves.

Entusiasmado pelo Botafogo, um amigo perdeu recentemente a oportunidade de assistir a um clássico no Rio de Janeiro. Tudo porque não considera a possibilidade de voar. Assim como a de meu companheiro de profissão, sua opinião é imperturbável: “Lugar de gente é no chão. Em terra firme”. Para cada 10 milhões de voos de aeronaves de grande porte, apenas 4 acidentes.  De acordo com o psicólogo e psicanalista Robert Wolfger, o medo de voar é irracional. E acrescenta: “Uma pessoa teria de voar todos os dias durante 3.400 anos para se tornar uma vítima”. O medo de voar, segundo o especialista, “é desproporcional aos verdadeiros riscos da aviação”.

O medo, estatisticamente, é, certamente, desproporcional. Mas não há coleta de dados que enfraqueça – concluo – os seguintes comentários empíricos: “Envie esses dados para as famílias das vítimas”, esbravejou o professor. “De repente é o dia do piloto”, ironizou o botafoguense.

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I Know It’s Over

Junho 1, 2009

Oh Mãe, posso sentir o chão caindo sobre minha cabeça
E enquanto deito em uma cama vazia
Oh bem, tudo está dito
Eu sei que acabou, ainda assim me agarro
Não sei mais onde eu possa ir

Oh Mãe, posso sentir o chão caindo sobre minha cabeça
Veja, o mar quer me levar
A faca quer me cortar
Você acha que pode me ajudar?

Triste noiva de véu, por favor seja feliz
Belo noivo, dê a ela abrigo
Bruto, grosseiro amante, trate-a gentilmente
(embora ela precise mais de você do que te ame)

Eu sei que acabou, ainda assim me agarro
Não sei mais onde eu possa ir
(Acabou, acabou, acabou, acabou)
Eu sei que acabou

E na verdade nunca começou
Mas no meu coração era tão real
E você até falou comigo e disse:
“Se você é tão engraçado
Por que então está sozinho esta noite?
Se você é tão inteligente
Por que então está sozinho esta noite?
Se você é tão divertido
Por que então está sozinho esta noite?
Se você é tão atraente assim
Por que dorme sozinho a noite?
Eu sei
Por que esta noite é igual a qualquer outra noite
É por isso que você está sozinho esta noite
Com seus triunfos e encantos
Enquanto eles estão nos braços um do outro”…

É tão fácil rir
É tão fácil odiar
É preciso força para ser gentil e carinhoso
(Acabou, acabou, acabou, acabou)

É tão fácil rir
É tão fácil odiar
É preciso ter culhões para ser gentil e carinhoso

O Amor é Natural e Real
Mas não para você, meu amor
Não esta noite, meu amor

O Amor é Natural e Real
Mas não para pessoas como você e eu, meu amor

Oh Mãe, posso sentir o chão caindo sobre minha cabeça
Oh Mãe, posso sentir o chão caindo sobre minha cabeça
Oh Mãe, posso sentir o chão caindo sobre minha cabeça
Oh Mãe, posso sentir o chão caindo sobre minha cabeça…

. The Smiths

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De Mãos Dadas

Maio 14, 2009

Chove intensamente, vagarosamente a balsa passeia pelo cais do Rio Parnaíba. Tudo está tão diferente… O sonho de ter um bom final de vida está distante agora.

O Sol está escondido entre as fortes nuvens que aparecem ao entardecer. Orácio recolhe os poucos peixes que conseguira pescar. Mias ao longe, Jeosá recolhe as redes. O Rio, apesar de muito cheio, não fornece uma farta alimentação para os dois.

Caminhando em meio a poças de lama, voltam ao abrigo. Suas casas foram tomadas pela água, juntamente com centenas de outras famílias.

Um ambiente fétido, porém silencioso. Faces envoltas de um pânico sobrenatural, nada subversivo para esta hora. Sem nenhum tipo de saneamento nem paz.

Muitos são os corpos cobertos encostados em uma parede. A água fornecida é totalmente imunda e as larvas e bactérias fazem dela seu reino.

Orácio, pálido de fome e frio, faz suas últimas preces para aquilo que estava escrito desde o começo do inverno. Jeosá, com a camisa ensopada por lágrimas, preparava o lençol que iria cobrir o corpo. As famílias, assustadas, pouco a pouco levantam-se e atiram os entes que irão descansar no fundo do Rio…

. Ícaro Uther

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Mães e Filhos

Maio 6, 2009

“O adolescente não vislumbra a possibilidade do erro.”


Na semana que antecede o dia das mães, pretendo escrever (desabafar) a respeito de uma incômoda idéia, dessas que ficam atravessadas durante semanas, atrapalhando a organização dos pensamentos, implorando para materializar-se enquanto texto. Idéia que não resultará em cartões coloridos. Em agrados e mimos. Em palavras de amor.

Mães reunindo-se em grupos de apoio. Mães apoiando mães. Mães de filhos-apenas-saudade. Mães derrotadas diante de meninos mortos. Mães de filhos-apenas-lembrança. Mulheres sozinhas e confusas. Assimilando os porquês de tamanha aflição.

O adolescente não entende que, ao arriscar-se, é a vida dos pais que também está em jogo. O adolescente não vislumbra a possibilidade do erro. E ao errar, exaure a mãe em um inferno-turbilhão de desespero. Cabe ao pai (o macho racional indestrutível), juntar os cacos daquela família arrasada pela fatalidade. Bem sabe ele que o serviço é inútil. Nada será capaz de substituir o pedacinho que se foi para sempre.

E o pedacinho que se foi para sempre passava as noites com os amigos (pedacinhos que também se foram para sempre) praticando um estranho jogo de xadrez com a morte. Egocêntrico, não enxergava o vigor da adversária. Sem capacete, alcoolizado e em alta velocidade alumiava-lhe a possibilidade da vitória. De repente: xeque-mate. O reizinho está morto.

E quantos eufemismos diante da mãe! Quanta gritaria durante o velório! Por quê? Se era tão jovem. Por quê? Se era imortal. Por quê? Se sabia exatamente o que estava fazendo. Por quê? Se nada poderia atingi-lo. Por quê? Se agora apenas sombra. Apenas pó. Apenas nada.

Numa tentativa desesperada, mães agarram-se a mães. Chegou a hora de elaborar o luto. Para isso há páginas na internet. Programas de televisão. Grupos religiosos. Há mães compartilhando a experiência dolorosa em praças e auditórios. O problema é que o diálogo é restrito. Entendem o sofrimento umas das outras, mas não entendem o papel da família nesse processo. São capazes de amparar, enquanto nova tragédia constrói-se em suas próprias casas.

Sonho com o dia em que um grupo de adolescentes interditará a Frei Serafim. Faixas e cartazes chamando a atenção de tantos outros adolescentes. Alguns ficarão espantados. Afinal, não são mães chorando a perda dos filhos. São os próprios filhos anunciando: não nos perderemos mais.

. Ajosé1150

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Amar

Maio 5, 2009

Fechei os olhos para não te ver

e a minha boca para não dizer…

E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,

e da minha boca fechada nasceram sussurros

e palavras mudas que te dediquei…

O amor é quando a gente mora um no outro.

. Mário Quintana

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Teu Abrigo

Abril 30, 2009


Eu vejo tua luz no sereno fino da manhã
O dia acorda lentamente
E mais lentamente ainda te observo acordar como uma princesa
Que vens bela ajudando a clarear a terra molhada

A chuva é pouca
Mesmo assim o sol – fraquinho – nos mostra sua beleza
A cidade toda acorda
E antes de todos já estou acordado

E continuo te amparando
Te seguro como uma rara jóia
E tomo todo o cuidado para que não me vejas chorando
Para que não tema minhas lágrimas
Pois são de felicidade, querida

Traiçoeiras elas vem, sem prévio aviso
Mas limpam minh’alma e purificam meu peito
E, de certo modo, até gosto disso
Pois saiba que até quando choro
Quero ser teu abrigo

. Ícaro Uther

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Pois é

Abril 27, 2009

(Homenagem a música do Los Hermanos)

E eu pensei que um dia
Tudo iria ser aquela fantasia
Que eu sonhava em ter nas mãos

Já que Deus não nos permite
Nem prever nosso próprio destino
Tento desfazer esse nó, mas é em vão
Já dizia antes meu coração:

Avisa que é de se entregar o viver,
Avisa que minha carne é escassa…
E ao amanhã agente não diz nada
Vamos fingir que é um conto de fadas
E viver, assim, essa eterna ilusão.

. Ícaro Uther