Da Cantiga

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permita-se sorrir nos verbos
beijar os lábios
cantar eternos
enamorar-se
tornar-se verso
sentir a brisa
abraçar tetos
findar marasmos
ou comer quieto
amar profundo
mergulhar reto
gritar ao mundo
sem desespero
andar sozinho
sentir o cheiro
e quando acalmar
a ciranda cansa
tombarei contigo
minha esperança

. Ícaro Uther

Ellipsism

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Desde que kairosclerosis surgiu na tela eu fiquei jouska que só e percebi o quão difícil deve ser criar uma nova palavra. Aquela sensação que sobe o âmago e embebeda a língua já tem nome? Deve ter, né!?

Eu que deveria tatuar na carne lethobenthos e inventar uma palavra para descrever o quão maravilhoso era a cena de te ver sorrir com o canto da boca, enquanto pressionava levemente os olhos e abaixava a cabeça em direção ao meu peito.

Liberosis, enfim. Ânsias e noites sem fim. Kairosclerosis é até simples, eu sei: é o momento em que você percebe que está feliz – e tenta conscientemente aproveitar essa sensação – o que obriga seu intelecto a identificar e colocar a sensação em um contexto, onde a felicidade lentamente se dissolve até se tornar pouco mais do que um retrogosto. Mas retrogosto não desce. Que palavrão.

. Ícaro Uther

Circo em Branco e Preto

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o palhaço está triste, ele disse
ele disse que o palhaço, mesmo triste,
põe a máscara e rouba a cena, ele disse

eu disse que o palhaço triste
com o nariz em riste, pintando vermelho
diante do espelho, deixa dispersar

se disse, vendo deste lado, triste
do palhaço triste ser palhaço
e ter que atuar

eu disse que o sorriso falha
e o palhaço tarda, pois,
atrás da cortina existe outro espetáculo

. Ícaro Uther

Café e Alzheimer

“Acordo e levanto. Passo um café, organizo algum caos tentando lembrar qual dos livros parei de ler por último, na metade do último capítulo.

Vejo meus e-mails, respondo os que interessam. Me lembro de alguma, tentando lembrar qual dos erros usei para deixar de ser o último, que ela amou por último antes desse.

Penso um tanto, arranho acordes, a voz não vem. E leio tudo que escrevi na noite anterior tentando lembrar qual dose tornou, em algum momento, aquele lixo genial ou bacana.

E jogo fora o resto do café frio, as reflexões do livro largado, os e-mails dispensáveis, os amores mal vividos, os acordes mudos, os textos fracos.

E assim mantenho a rotina interessante, sempre recomeçando um pouco, todo dia, todo instante.

Minha dose de cafeína e Alzheimer.

Acordo e levanto, passo um café…”

. Cícero Lins (Vocalista da Banda Alice)

A Árvore da Serra

– As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho…
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

– Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs alma nos cedros… no junquilho…
Esta árvore, meu pai, possui minha alma!…

– Disse – e ajoelhou-se, numa rogativa:
“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!

. Augusto dos Anjos

Mãe Dete

Tia Odete faleceu. Não pude velar o seu corpo. Nem mesmo acompanhá-la ao cemitério. Também não assisti ao desaparecimento do caixão no momento em que a areia preenchia a sepultura. Muito menos ouvi os lamentos das tias (Como é possível conviver a vida inteira com uma pessoa e, repentinamente, perdê-la?). A pergunta, aos prantos, é inevitável: Por que, meu Deus?

Também não estarei presente quando da leitura desta crônica. Quantas vezes não deixamos de prestigiar aqueles que amamos por estarmos ocupados demais? Quantas vezes nos afastamos quando alguém precisava apenas de um pouquinho de atenção? Quantas vezes fomos egoístas e mesquinhos quando o mais sensato era olhar para o próximo e distribuir, feito pétalas de rosas, todo o carinho de que necessitava?

Tia Odete era uma mulher forte. Não se aquietava jamais. Constantemente aqui e acolá. Era também de uma sinceridade peculiar. Olhava-nos nos olhos e disparava (Tiro certeiro!) o que sentia e pensava. Não deu à luz filhos. Mas deixou órfãos irmãos, sobrinhos e amigos. O que esperar, se não caridade, de uma mulher que, juntamente com as irmãs, abriu mão da própria vida (conquistas e sonhos) para cuidar dos pais? Imagino o vovô Zé Felipe e a Vovó Zulmira abraçadinhos com a filha querida. Retribuindo o carinho e a atenção. Explicando que ali é o Céu. Preparando mãe Dete para uma nova “vida” repleta de felicidade.

Há algumas semanas estive com ela. Conversamos bastante. Até sorri, ela também sorria, de algumas histórias, resultado da confusão mental em que se encontrava. Em sua doença, estava tranquila. Serena. Não havia revolta em suas palavras. Nem desespero nas atitudes. O olhar transmitia uma meiguice que impressionava. Em seus últimos momentos, recebeu de Deus o sossego enquanto presente. Resignada, aceitou a morte. Encarou a morte. Recebeu a morte, oferecendo-lhe a melhor cadeira. E deixou-se levar. Com a dignidade de quem soube viver. Com a dignidade de quem também sabe morrer.

. Ajosé 1150

Hoje é o Dia da Cultura

Por: O Piaguí – Culturalista

A título de curiosidade, além de prestar minha fiel colaboração ao conhecimento de nossos irmãos parnaibanos, compartilho da importância desta data de infinita valia para todos nós, amantes da cultura. O Dia da Cultura foi instituído a 15 de maio de 1970 por decreto da Lei n.º 5.597, que criou não apenas a cultura como dia alusivo, mas também a ciência. O que poucos sabem é que tal lei foi criada em homenagem a Ruy Barbosa, grande político e escritor brasileiro, nascido a cinco de novembro de 1849. Justa homenagem, já é de nosso conhecimento o seu destaque ímpar no campo das letras e das ciências, não apenas no Brasil, mas no mundo.
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Ruy Barbosa nasceu em Salvador, Bahia. Polivalente, foi advogado, jornalista, jurista, diplomata, poeta, prosador, ensaísta e brilhante orador – dominava a língua portuguesa como poucos. No campo literário, foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras, cadeira n.º 10. Chegou a estudar com Castro Alves e desfrutava da amizade de Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, dentre outros. Seu espírito era nobre, demonstrava profundo zelo pela Educação e Cultura. Na política, além de senador, quando  proclamada a República, elevou-se ao cargo de Ministro da Fazenda do Governo Provisório; chegou a se candidatar à Presidência do país, porém, abriu mão em favor da candidatura de Afonso Pena. Era notadamente um homem culto  e conhecia os principais centros da cultura mundial, desde o seu exílio político às missões de diplomacia. Foi tão respeitado fora do País que quando de sua morte a 10 de março de 1923, o jornal Times, de Londres, lhe dedicou uma nota de pesar, nunca antes concedida a qualquer estrangeiro.
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Falar de cultura envolve um leque imenso. A Cultura está no nosso sangue, na nossa socialização, em reminiscentes estros de artes produzidas a todo instante e espalhadas ao consumo de inúmeros cidadãos. Falar de Cultura envolve, antes de tudo, educação, saúde e crença. Somos seres culturais por essência. Assim como a família atua como célula da sociedade, a cultura atua como fator organizacional dessa célula. Um povo sem cultura é um povo sem identidade e, hoje, podemos afirmar, com total certeza, que moramos numa das mais privilegiadas cidades de valor cultural do Brasil.
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A terra de Simplício Dias da Silva, mais que uma simples cidade banhada por um dos braços do caudaloso Parnaíba, é um recanto de diversificada inspiração artística. Somos dotados de orgulhosas marcas de pioneirismos e singularidades. Hoje, no final desses quatro anos de muita luta pela revitalização de nossos costumes e tradição podemos nos orgulhar de sermos parnaibanos.
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Atualmente, Parnaíba enxerga sua cultura regional com um novo juízo… Vê-se o Bumba-meu-boi, tão premiado… Há alguns anos sua premiação não competia com a realidade que ele merecia, porém, sabedores de tal realidade não-condizente, logo, tratamos de reverter tal quadro, o que gerou maior brilho e beleza em nossos festivais, incentivando, inclusive, o aparecimento de outros bois brincantes vindos não só da Ilha Grande de Santa Isabel como também dos mais tradicionais bairros de nossa cidade. Mais uma vez, despontamos como a cidade de maior premiação “boieira” do Nordeste.
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Parnaíba, nunca em sua história enxergou tantos lançamentos de livro, e, num curto espaço de três anos e poucos meses, contabilizou a publicação de 24 livros, sendo 15 de autores parnaibanos. Parnaíba nunca esteve tão movimentada culturalmente, por que não citar alguns exemplos de minha gestão, quando Secretário da Cultura desta cidade? Criação do Museu do Esporte “Pedro Alelaf”, localizado em uma das salas do Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Parnaíba, Centro; Realização do Parnafolia (carnaval fora de época); Criação do Encontro Regional de Bandas Marciais; Criação do Reveillon de Praia da Parnaíba na Pedra do Sal;  Criação do Concurso “Luzes de Natal”, motivando o espírito natalino; Construção do Quadrilhódromo na Avenida Padre Raimundo José Vieira, obra de caráter pioneiro e único em nível nacional; Tombamento da Casa Grande de Simplício Dias da Silva;  Maior premiação da história do carnaval de Parnaíba; I Arraial Regional de Folguedos do São João da Parnaíba, onde participaram 18 cidades; Maior premiação do Brasil para os Bois Brincantes e Quadrilhas; Criação das Ligas das Quadrilhas; Criação da Sociedade dos Bois da Parnaíba; Comemoração dos 70 anos da Biblioteca Pública de Parnaíba; Tombamento da Banda Municipal de Parnaíba; Restauração do Jardim “Cajueiro Humberto de Campos”; Criação da Parada pela Diversidade Sexual de Parnaíba; Celebração do Termo de Cooperação Cultural com a penitenciária Mista “Dr. Fontes Ibiapina” e Fundação Dr. Raul Bacellar, para o empréstimo de livros aos detentos; “Natal da Luz”, chegada do Papai Noel no Castelo de Tó, na Praça de Eventos da Avenida Padre Vieira (primeira vez em 163 anos de Parnaíba); Tombamento a nível nacional do Centro Antigo de Parnaíba e, ainda por vir, o Recebimento (Projeto) do acervo (Moderno) da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro para a Biblioteca Pública Municipal.
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É por tudo isso, e o que há de muito acontecer, que só tenho a desejar um feliz Dia da Cultura a esta terra banhada em arte, rica em criatividade e repleta de valores inquestionáveis!

. Arlindo Leão