Cratera Vazia ou Como as pessoas se perdem no meio da vida

Aquele asteroide que prometera nos dizimar finalmente estava a caminho. Te vi – bem distante, até – segurando uma mão que não era a minha e derramando uma lágrima que não era de açúcar. Meio fora de tom?

O certo é que não sabíamos direito o que fazer. Os desesperados já tinham perdido aquela adrenalina corriqueira e a reza tornara-se baixinha. Quase um sussurro, aliás. Meio sem fé, sabe?

Meu mundo estava em ruínas desde o dia que você me olhou com aquele sorriso de canto de boca e soltou um talvez. Portanto, o que aconteceria ou deixaria de acontecer por causa da distância que tomamos um do outro não importava mais. Era sem sal. Quase um sussurro, aliás. Era um pedido meio reza, sabe? Aquilo que eu pedia nas noites anteriores – que era para ter você aqui – não poderia mais acontecer por causa da maldita pedra que estava caindo do céu. Fuck you, NASA.

E já era tempo mesmo de acabar com tudo, você sabe. Perdeu a graça e a cor. Perdemos o sorriso e o fim da piada – a mesma que eu contava para você antes de dormirmos – e os deuses já tinham nos abandonado. Você já tinha me abandonado. Posso fazer essa analogia porque te considero uma deusa, lembre-se.

Enquanto você está parada olhando para o céu, sentindo a terra tremer e cantarolando uma oração, eu estou aqui te observando de longe e lamentando porque não poderei te reconquistar. Não poderei mais quebrar tua solidão. Não poderei sequer me desculpar pelo texto que escrevi narrando toda essa situação patética.

Ele se aproxima cada vez mais. Podemos sentir. Vê? É o fim. Só isso. Morreremos sem sermos heróis e sem nosso nome gravado na história. Ainda bem! Já que a partir de agora a história não existirá mais. Já que a partir de agora não existiremos mais.

. Ícaro Uther

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Canção do dia de Sempre

Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu…

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…

. Mário Quintana

Infantilidade

Há alguns anos passear pelas ruas de Parnaíba – pilotando uma barra circular vermelha (sem garupa!) – era uma tarefa cotidiária prazerosa. Afinal, transportar as namoradas no confortável (ironia!) varão da bicicleta rendia lá suas recompensas: cheirinhos e beijinhos no cangote da moça… roçar de joelhos no bumbum macio, nas coxas macias… (sensação maravilhosa de não dever nada a ninguém).

Senti-me invadido por essas lembranças graças a um encontro com certo aluno do ensino médio. Ao entrar em um ônibus, na Miguel Rosa (atualmente moro em Teresina), fui recepcionado com o seguinte comentário: professor ganha pouco mesmo… cadê o carro, Ajosé? O carro estava na oficina. Revisão de final de ano. Foi o que respondi. Rapidamente. Precisamente. Indignado. Não com o questionamento do aluno. Com o medo que me invadiu a alma de ser confundido, naquele instante, com alguém que precisa “pegar” ônibus todos os dias. Devo, inclusive, ter acrescentado: espero receber logo o MEU CARRO. Tom de saudade na voz: não vejo a hora de estar, novamente, com o MEU CARRO. Um pouco de esperança: amanhã, se Deus quiser, a oficina entrega o MEU CARRO.

O que eu não sabia, até então, incomoda-me demasiadamente. Em que(m) me transformei? Em que pedacinho do universo ficou perdida a humildade, sustentáculo do que havia de melhor em mim? Desde quando me tornei arrogante? Não será arrogância, prepotência, atrevimento – demência! -, sentir vergonha de estar aqui ou acolá? Estarei ensinando para os meus filhos tamanha imbecilidade? Serei professor de lições perigosas como as que assimilei, mesmo que subliminarmente?

Ainda não sei. Sei bem muitas outras coisas. Tipo: não desperdiçarei tempo precioso da minha vida reprimindo o que há de verdadeiro em mim. E o que há de verdadeiro em mim é aquela criança que perambulava pelas ruas do bairro Nova Parnaíba. Gritando. Cantando. Amando cada tiquinho de sonho materializado em experiências inesquecíveis. É aquela criança da Vieira da Cunha, sempre indignada com qualquer possibilidade de preconceito e discriminação.

. Ajosé 1150

Carpe Diem (?)

Sou professor de literatura há 12 anos. Convivo diariamente com centenas de adolescentes. Posso afirmar, sem nenhuma licença poética, que nos entendemos bem. Principalmente porque, na condição de adulto – por motivos quaisquer -, não esqueci que um dia já fui adolescente também.

Geralmente é assim: adultos não suportam a adolescência que, por sua vez, não suporta a infância. Conclusão: carrega-se a falsa impressão de concepção instantânea. Explicação: como se, ao abrir os olhos – Maravilhoso parto novo! -, o homem de vinte e cinco anos surgisse, aos vinte e cinco anos, sem tirar nem pôr.
Considerar o que somos, repudiando o que já fomos, resulta em estúpida postura arrogante e imediatista. Vislumbramos de tal forma o momento presente que não nos preparamos para o futuro e muito menos respeitamos as maravilhosas experiências adquiridas.

A adolescência aniquila qualquer possibilidade de sermos o que um dia os pais sonharam para nós – mesmo bem antes da concepção. O adulto é o reflexo desvirtuado da imagem perfeita – Egocêntrica! – do adolescente de outrora. É que em algum momento, por um descuido fatal, o espelho trincou.

Que mente sã ainda relacionará o ser adulto à estabilidade social? Quando verdadeiramente estáveis? Em qualquer etapa da vida esforçamo-nos para sobreviver. E sobreviver significa adequar-se. A ingenuidade, a rebeldia e a maturidade são apenas instrumentos de adaptação. Apenas nos comportamos, inconscientemente, como a sociedade espera que nos comportemos. Por isso mesmo adaptação não é – E jamais será! – sinônimo de estabilização.

Como eu poderia então, adulto e professor do ensino médio, rotular meninos e meninas, se habitam em mim todos aqueles que um dia já fui?
Como eu poderia então, adolescente e jogador de basquete, rotular meninos e meninas, se o que sou, ao escrever este artigo, será também um pouquinho de mim no instante seguinte?

Como eu poderia então, criança e super-herói, rotular meninos e meninas, se todos os dias as lembranças de erros e acertos surgem diante de mim, aos berros, fura-bolo em riste: você é humano!

. Ajosé 1150

Vilarejo da Alma

Esse pode não ser o seu lugar
berço de toda calma e alegria
Pode ser que da rota errada, o barco leve
a certeza de que, ir além, não poderia

Esse pode não ser o seu lugar
tantas cores que nem cabem no arco-íris
A felicidade ignora o bem moldado
As coisas mais lindas estão no inacabado

Eu te prometo, tem minha palavra
Seu lugar é meu peito, me faz tua casa
Eu te desejo coragem e carinho
mais sonho que dor, mais suor que destino

Esse pode não ser o seu lugar
e a saudade cheira a tanta lágrima
Chuvas que desabam sem cessar
sobre fontes, maçãs e nuvens abraçadas

Esse pode não ser o seu lugar
mas, de qualquer forma tens meu mundo
Nem mesmo a solidão tem o direiro
de machucar a gente desse jeito

Eu te prometo, tem minha palavra
Seu lar é perfeito, vilarejo da alma
Eu te desejo somente o que for desejo
mais luz que miragem, mais força que medo

Primavera

Quando o dia raiou eu já era primavera. Vivendo cada segundinho de vida esperando o verão chegar. Estranho é que nem percebi os dias passando tão lentamente. Vou dispensando as horas, esperando o tempo me dizer o que fazer, no entanto, ele não diz nada.

Quero um abraço, um sorriso forjado, um par de meias aquecendo o meu par de meias. Não importa a direção que seguir, nem de fato se vou ter companhia. Queria simplesmente o amor… Queria que tudo de ruim sumisse e eu assumisse meu lugar dentre as flores multicoloridas.

Mas cansei de gostar, me acostumo um pouco com as escolhas que o destino me propôs. Cabe-me aceitar. Considero o sofrer como uma alegoria, feita de papel, rasgando o céu de veludo que está sobre minha cabeça.

De que vale viver de forma distorcida, impactante, se no fundo estou à mercê do tempo?! Meu prazo de validade está chegando ao fim, a temperatura me diz isso. Vem, verão, em uma próxima estação eu volto.

. Ícaro Uther

Palavras Fortes

Vivendo um sonho bizarro, utópico e surreal. Caminhando entre ilusões fortes que inundam minha cabeça. Vandalizando as dores, as cores, os amores. Ritmos tolos que nos fazem percorrer caminhos eqüidistantes.

Lendo livros de dez páginas, prosas melancólicas, músicas fora de moda. Tudo fora de lugar. Tudo fora de eixo. Nunca se acostume com isso. Se fosse a mim, outrora, tentaria reverter o mundo. Deixa que o vento refaça a maré, depois assopre e dê uma força a ele.

Continue sentindo a melodia. Pensamentos agora não mudarão nada. Cuspa na cara da infelicidade e chute a canela dos inimigos. Digo-vos mais: Sente-se. Enfrente o caminho mais perigoso, a dificuldade mais virtuosa, enfrente a vida!

Só não caia no marasmo, triste. Perdedor é aquele que não tenta. Vencedor é aquele que luta até o fim, mesmo com uma derrota atravancando suas artérias e deixando o sangue escorrer no campo de guerra. Melhor o sangue coagulado do que uma veia límpida, mas embalsamada pelo peso da consciência.

. Ícaro Uther