Cratera Vazia ou Como as pessoas se perdem no meio da vida

Aquele asteroide que prometera nos dizimar finalmente estava a caminho. Te vi – bem distante, até – segurando uma mão que não era a minha e derramando uma lágrima que não era de açúcar. Meio fora de tom?

O certo é que não sabíamos direito o que fazer. Os desesperados já tinham perdido aquela adrenalina corriqueira e a reza tornara-se baixinha. Quase um sussurro, aliás. Meio sem fé, sabe?

Meu mundo estava em ruínas desde o dia que você me olhou com aquele sorriso de canto de boca e soltou um talvez. Portanto, o que aconteceria ou deixaria de acontecer por causa da distância que tomamos um do outro não importava mais. Era sem sal. Quase um sussurro, aliás. Era um pedido meio reza, sabe? Aquilo que eu pedia nas noites anteriores – que era para ter você aqui – não poderia mais acontecer por causa da maldita pedra que estava caindo do céu. Fuck you, NASA.

E já era tempo mesmo de acabar com tudo, você sabe. Perdeu a graça e a cor. Perdemos o sorriso e o fim da piada – a mesma que eu contava para você antes de dormirmos – e os deuses já tinham nos abandonado. Você já tinha me abandonado. Posso fazer essa analogia porque te considero uma deusa, lembre-se.

Enquanto você está parada olhando para o céu, sentindo a terra tremer e cantarolando uma oração, eu estou aqui te observando de longe e lamentando porque não poderei te reconquistar. Não poderei mais quebrar tua solidão. Não poderei sequer me desculpar pelo texto que escrevi narrando toda essa situação patética.

Ele se aproxima cada vez mais. Podemos sentir. Vê? É o fim. Só isso. Morreremos sem sermos heróis e sem nosso nome gravado na história. Ainda bem! Já que a partir de agora a história não existirá mais. Já que a partir de agora não existiremos mais.

. Ícaro Uther

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Casa Vazia

Eram negros como a noite
Me olhavam como se olha a relva
Quando o outono passa 

Eram frios como a poesia
De quem não ama e inventa
Um mundo só de palavras

Quanto a ele, era frágil
Tão desesperado
Talvez mais que eu 

Sob o brasão da armadura
Na máquina mais perfeita
Do Engenheiro Deus 

Se morava, só morava
Se existia, só existia
Se cantava, era desafinado
Se sentia, sentimento não havia

Mas, elas o consumiam
E eu era um mural
Esperando sangue feito giz

E diante do silêncio
Na cinza breve do momento
Eu via tanta gente feliz

. Ithalo Furtado

A Pedidos…

ORÁCIO E O MEDO DE AMAR

Fevereiro 10, 2008

E aqui estou eu, mais uma vez, a falar do pior – melhor – sentimento que podemos ter na nossa caixinha de surpresa que carregamos dentro do peito. Por que tal medo da pessoa amada? Por que o medo de ter aquela pessoa por perto? Por que preferimos nos esconder a tentarmos ser felizes?

Jogaria tudo para o auto – e jogo – por uma paixão, um amor, uma confusão entre amizade e afeto. Prefiro te ver feliz que eu. Sinceramente, essas são minhas palavras de honra. Você estando feliz, mesmo que não seja comigo, vou acompanhar sua felicidade. Apesar de que até o ultimo estante, escondi o que sinto por você, até o ultimo suspiro eu não revelei pra ninguém o que sentia. Sei que estas singelas palavras não servem só pra mim.

Deixei de ter medo do amor, medo de tal sentimento repugnante. Prefiro me aventurar, curtir a vida, simplesmente, tento não me apaixonar, mas tenho o coração mole. Tenho um coração tão mole, que pelo simples fato de ouvir uma música bonita, choro. Tenho o coração tão mole, que consigo perdoar o pior dos criminosos, e ainda por cima, consigo buscar minha felicidade, mesmo que seja superficial.

Tente achar um caminho que lhe traga alegria, que lhe traga conforto. Mesmo que o caminho seja grande, tente. Não deixe de lutar na primeira batalha perdida. Busque quem você ama, mesmo que tenha que enfrentar os sete dragões do inferno.

Já passei da época de me esconder dentro das minhas cobertas e chorar por um amor. Já passei da época de rabiscar no meu caderno o nome da pessoa amada. Agora eu vou atrás, acho que me machuco mais aqui parado, do que tentando.

Mesmo que seja em vão, vou poder falar que tentei. Não vou me sentir um fraco; fraco sim! Se fiquei aqui parado é por que fiquei com medo, se fiquei aqui parado é por que não tive forças para lutar, e sinceramente, prefiro morrer na mesmice de sempre, do que me sentir um fraco.

Prefiro ir e quebrar a cara, do que ficar choramingando pelos quatro cantos da minha casa. Diga o que você sente pela tal pessoa amada, isso sim é certo. E digo mais, isso, é aderir à revolução.

Esse texto é para todas aquelas pessoas que amam alguem, mas tem medo de ir atrás do amor.

. Texto escrito por: Ícaro Uther

O Rock do Euclides


A praia está deserta
O mundo é um apartamento
Os moinhos estão fartos dos mesmos ventos
As casas continuam parecendo, aos meus olhos, prisões
O dia está seguindo sua normalidade cinza
Em contraste com todas essas máscaras
A esconder rostos pálidos e sem esperanças
 

E Euclides sobe a rua com sua depressão em sacolas plásticas
Ele é um homem comum e feio, que tem duras obrigações
Euclides sabe que a vida é uma riqueza incalculável
Mas, insiste que a morte é um lugar mais calmo

Euclides não sabe que a verdadeira loucura é apenas existir
E esquecer que a vida é um livro cheio de páginas
Mas, se a gente tiver força pra saber que viver é nunca desistir
Pode ser que Euclides volte a ver o mar como uma dádiva 

E ter o mar ao nosso alcance é o bastante
É voltar a aprender com a imensidão que nós somos infinitos
Voar, talvez seja um dom dado somente aos anjos
A nós cabe somente o pensamento e a certeza que de nada é impossível

E então, Euclides volta a celebrar sua vitória…
Mas, a natureza vive a mudar os rumos da mesma história

A esconder rostos pálidos e sem esperanças
Em contraste com todas essas máscaras
O dia está seguindo sua normalidade cinza
As casas continuam parecendo, aos meus olhos, prisões
Os moinhos estão fartos dos mesmos ventos
O mundo é um apartamento
A praia está deserta

praia

. Ithalo Furtado

Quando cai o céu

 

No meu berço você repousa
como o anjo mais bonito
pena que às vezes a gente
se torna estranho de tanto se conhecer 

Tu és superfície de vênus
na minha noite sem leito
tua palavra e teu gesto
teu sopro de vida em meus versos perfeitos

De tanto te tocar eu me toquei
da exatidão que era se entregar ao que eu não sei
Será tão difícil perceber
que temos tantos sonhos ainda? 

Que a gente é maior que as palavras
Que a gente é mais forte que a lágrima
Que ainda somos capazes de perdoar
eternas mágoas 

E eu fui buscar
Pra toda dor uma cura
Pra toda cura um coração
Pra todo medo uma jura
Pra todo erro um perdão 

E a sós com o mundo
eu me vejo como meu próprio herói
E a sós eu sinto
que sozinho eu me sinto ainda bem melhor

Pois tudo só me traz solidão
nosso peso, sua inconsciência
é que nos sobra senso e nos falta emoção
e no nosso instante de silêncio
uma bandeira se ergueu
anunciando toda falta e cor
e na outra metade de tudo
outra bandeira nos anunciou

Quando cai o céu
O mundo sente encanto e peso

Peso

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 . Ithalo Furtado

Vírgula

Vírgula é o sinal vermelho mais rápido que existe
na avenida da frase, entre as ruas das palavras que nos confudem e se completam a todo instante
Um instante de pausa, uma pausa no insistente diálogo com si mesmo
um duelo entre a fala, a calma e o silêncio
Vírgulas são lágrimas dispostas nas mais belas palavras do livro,
da bula de remédio, do aviso na geladeira
e nos fazem parar por segundos pra que a gente nunca perca o encanto
nem de admirar a palavra seguinte nem de lembrar com carinho da que já passou
Tudo isso, em um imperceptível espaço de tempo
quase um sopro do mais imperfeito verbo
da intensidade do advérbio, do veneno mais morfossintático
Vírgula é a ponte entre a falta de sentido e a continuação dessa falta
é uma busca ilusória pela explicação de tudo que já se leu até aquele exato segundo
como se a vida fosse um dicionário de todas as pessoas do mundo 
Embaixo dessa ponte, corre um rio de dúvidas
são nossos pés que permanecem imóveis, inversamente proporcionais a nossa imaginação
que voa parada, tão livre e tão perfeita
como um beija-flor que exala seu mágico brilho pelos jardins do nosso coração
Sempre que me deparo com uma vírgula
é como se uma borboleta pousasse sobre os meus lábios
e eu entrasse em transe profundo e perdesse todos os meus sentidos
Vírgula é o destino dos nossos olhos quando eles se espantam
com a presença quase que silenciosa daquilo que mais nos provoca dúvida
quem sabe, se houvessem vírgulas também entre as letras
as palavras não seriam um pouco menos confusas?
Vírgula é perdão e pecado literário
entre aqueles que devoram rápido e aqueles que degustam com cuidado
qualquer tipo de leitura ou retalho
das palavras tortas que a gente escrevia quando criança
Vírgula é senso, é loucura, é a cama do oito quando ele se deita
Vírgula é o assassinato da pressa, é a prece pelo futuro e a intenção de sempre estar ligado ao passado
Vírgula é instinto de um tímido bater de pálpebras, de um leve suspiro, não ofegante nem obstante, apenas, leve
E no fim de cada texto, quando penso que por ai pararam as velhas pausas mágicas que as vírgulas me causaram
eu percebo que sempre estarei me perdendo na reticências que eu mesmo criei.

. Ithalo Furtado

Vâmila

Sempre achei engraçada a lógica do meu raciocínio inexato
por não ser raciocínio, quando o que me move é realmente aquilo que canta meu coração
que fascina-se, vagarosamente, pela ausência de sentido
das coisas sem graça, das casas sem molde, das palavras sem definição
de tudo o que não é perceptível aos olhos, de qualquer desejo que seja incompreendido
dos sentimentos que não precisem ser explicados, das dores que não necessitem de medidas
de tudo que cala e tudo diz com o próprio silêncio.

. Ithalo Furtado