Circo em Branco e Preto

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o palhaço está triste, ele disse
ele disse que o palhaço, mesmo triste,
põe a máscara e rouba a cena, ele disse

eu disse que o palhaço triste
com o nariz em riste, pintando vermelho
diante do espelho, deixa dispersar

se disse, vendo deste lado, triste
do palhaço triste ser palhaço
e ter que atuar

eu disse que o sorriso falha
e o palhaço tarda, pois,
atrás da cortina existe outro espetáculo

. Ícaro Uther

Sobre Gatilhos e Espelhos

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Em algum ponto dentro dos próximos segundos ele estará sem vida. Encara o espelho, checa novamente o cano enferrujado e as paredes úmidas. Ali não existe luz no fim do túnel, harpas pitorescas ou algo extraordinário que faça com que mude de ideia.

A linha final já foi escrita e não há nada possível de ser feito para que os olhos fiquem. Mão pesada. Para que tudo acabe sem frio na espinha ou com louças manchadas. A respiração ofegante acalenta a escuridão iminente e a mão – pesada? – percorre o caminho oposto, mirando a casa, sem espelho e sem louças e sem cantigas baratas, que agora ecoam: beira de estrada.

A vista não avista fim de trilha; a mão não tem mais solidão e as pessoas carregam em si um sorriso demente. O suor escorre na ponta do cabelo e os calafrios não querem descansar. A boca seca derrete a estrada pro mar.

Não existe cedo, espaço, razão ou qualquer outro sentimento que fizesse com que os sentimentos aflorassem novamente. Não existe mais tempo, existe? No meio do meio termo o tempo ruiu!

Orácio partira antes dos seus pensamentos. Aquietou-se e acordou segundos depois para morrer novamente.

. Ícaro Uther

Antes

Sem você por perto o dia é cinza. As horas param. A boca cala e insiste em não aceitar a distância que separa nossos lábios. Nossos corpos.

A vida não acaba, mas perde a graça. Tudo que entra na retina é aleatório. Sem importância e sem frescor. Um turbilhão de sentimentos indefinidos apertando o peito e me fazendo querer desistir. Pular do trem. Aceitar que não mais aquecerei minha pele na tua. Mas não aceito.

Sou teimoso.

Guardarei com carinho as tuas roupas e as lembranças dos bons anos que vivi contigo. Deixarei a tua foto desbotar na minha estante. Fantasiarei tua presença e escreverei versos para desabafar o que sinto. Versos que doem. Lembranças que ficam.

E quando estiver em outros braços, pequena, que sejam aquilo que não pude ser. Que seja feliz, único e eterno. Que seja eu.

. Ícaro Uther

Versos e Estradas

Não há nesse mundo tinta mais forte que o amor. Só de pensar em apagar os versos que escrevi, o peito já inflama e a saudade faz o coração sangrar com as linhas frias, incongruentes e que só fazem sentido quando sussurradas ao pé do ouvido.

Ah, mas não há nada melhor que ler algo escrito com afeto! Por isso escrevo e escrevo e espero que quando você voltar eu possa prosear baixinho, assim, meio timidamente e que, pouco a pouco, volte a colorir teu coração e espalhar no meio do mundo nossa felicidade.

Enquanto você não volta, continuarei desenhando o teu sorriso em um pedaço de papel e vou fantasiando qual verso irei escrever para deixar marcado na tua memória.

Se não voltar, tudo bem. Levarei as lembranças na bagagem.

. Ícaro Uther

Antes do Sol Nascer

A escada estava vazia. Cinza. Fria e em absoluto silêncio. Ela já tinha partido e o que ficou na memória foi o sorriso de canto de boca, assim, meio triste e cansado. Talvez fosse um cansaço acumulado. Um relacionamento pesado sendo carregado há um bom tempo.

Acendi um cigarro, fechei os olhos e enquanto bronzeava o pulmão todo aquele filme passou pela minha cabeça. Um ar melancólico tomava conta do ambiente que ainda estava com resquícios daquele perfume que encantava meu olfato e me deixava com vontade de sentir o aroma ali de pertinho, no canto do ouvido, sussurrando alguma besteira qualquer para que o sorriso de canto de boca aparecesse novamente.

Senti-me sozinho e meu coração gritava essa palavra que amarga a boca e cerra os dentes: solidão. Nuvem negra e impiedosa que cai pesada e alastra-se feito fera e fere todos os sentidos que nem sequer imaginávamos que poderiam doer, mas doem. É uma dor inexplicável, que vem do âmago e nos destrói aos poucos.

A madrugada vem atenta e a insônia cuida de manter-me com uma aparência ébria e desleixada. A barba por fazer, o café por esfriar e o coração a pulsar pensando que poderíamos estar ali, bem querer, e fazer daquele cantinho nosso lar.

Não rasguei nenhuma foto tua, vês? Ainda acho teus cabelos nos cantos do chão e tuas lembranças espalhadas pela mesa. Volta e pega alguma coisa, faz algum gesto com a cabeça; olha nos meus olhos e diz que me ama. Pede para que eu não desapareça. Se não pedir, fica só mais um pouco, me conta como está a vida lá fora e quando for embora, não se esqueça de voltar e me fazer feliz de novo.

. Ícaro Uther     

Canto de Fim de Noite

Adentrei meio sem jeito. O bar estava cheio e o único lugar disponível no balcão era ali, ao lado do barbudinho que estava com os braços encerrados olhando fixamente para algum ponto naquela imensidão de garrafas de álcool.

Não consegui diferenciar qual era o tipo de bebida que o estranho de hastes longas saboreava. Preferi cantarolar Smiths e entender melhor o ambiente. Acostumava-me com o cheiro dos cigarros e lançava tímidos sorrisos na multidão para conseguir um isqueiro sem levar uma cantada de brinde. Sempre ganhava uma cantada de brinde. Sempre me esquivava da maneira mais sútil que – depois de anos de prática – consegui, enfim, aprimorar: “tenho namorada, foi mal, não é nada com você”.

Mas sempre era algo com alguém que tentava, por um mínimo de segundo: aprovação. Tire a beleza mundana, as roupas descoladas, o amarelo do Lucky Strike no canto dos dedos. Depois daquela noite todos voltariam a ser marionetes e continuariam encenando para os chefes os ridículos papéis que repetiam e repetiam e repetiriam sem sentido algum.

Mas o problema é encarar aqueles cabelos grandes e perceber que parecem alheios a todos esses estereótipos. Ele continua sorrindo – balançando o copo por entre os dedos e tagarelando, vez ou outra, alguma frase de uma música qualquer. Ele continua seguindo a batida. Mesmo silenciosamente, quietinho, naquele canto que mais parece fim de noite, com aquele boné surrado e os chinelos descansados no pé da mesa. Ele não tem nada demais, pensei.

Apresentou-se como Orácio, desculpou-se por não poder oferecer um lugar para que eu me sentasse. Levantou-se, disse algo incompreensível, cedeu seu banquinho e perguntou meu nome. Encantei-me pelo sorriso e pelo olhar sereno que fazia com que o barulho, as pessoas e a angústia desaparecessem. Misturei meus problemas com alguma batida de limão e a conversa fluía tão bem que perdi a hora. Não importava. O coração estava em brasa.

O rapaz de cabelos grandes e meio desleixado desapareceu por entre as luzes vermelhas daquele pequeno bar sem sequer me dar um abraço ou acariciar meus cabelos. Não importa. Aquela foi a melhor noite da última semana.

. Ícaro Uther

Os Homens de Minerva

Apesar da beleza e da inteligência acima da média, ela andava armada com uma frieza extremamente calculada para destruir e deixar agonizando no chão o coração de todos os homens que ultrapassassem seu caminho e não conseguissem fazê-la sorrir. Por Deus, mas ninguém nunca conseguiu fazê-la sorrir! Nenhum ser com um maldito pinto no meio das pernas conseguiu satisfazê-la.

Ela sabia de todos os segredos, embaralhava os pensamentos e fazia você se sentir como se um anjo estivesse tocando harpa especialmente para você, mero mortal, enquanto a musa dos seus sonhos deleitava-se com o mais puro dos óleos orientais e despia-se lentamente. Ela era musa. Acorde. Ela sabe enganar-lhe facilmente, droga.

O salto quinze vermelho, acompanhado do vestido preto que flutuava com cada rajada de vento no meio da rua. Ah, mulher, e esse seu olhar que deixava o vendedor ambulante boquiaberto e com sonhos de crescer na vida só para ter alguém igual a você. Ele nunca terá alguém igual a você. Ponto. Mais um maldito ponto para seu ego que infla com cada olhar que você seca com esses olhos de morte e maldade. Malditos olhos vermelhos.

Ela não quer o Executivo, nem o rico Ditador. O peito ascende e parece querer vingar-se de cada homem que já maltratou uma mulher em algum canto do Mundo. Heroína? Mas ela é a vilã, droga! Não quero mudar o primeiro parágrafo desse texto. Ela é a vilã e pronto. São os nossos corações que ela destrói e deixa cinza, sem amor.  São os nossos pensamentos que ficam cheios de esperança e depois… nem sei o que vem depois…

Ela não tem boca sequer para cuspir. O sorriso é uma moldura feito espelho que reflete – não o que o coração sente – mas o que os homens querem ver. Ela é um objeto maligno, que cansou-se das decepções e escolheu viver a vida assim, alimentando-se incansavelmente de destinos que consegue atrapalhar. Ela não é sequer a morte, apenas uma caricatura dela. Ela não tem apenas sorte, tem todos os trocados dela.

. Ícaro Uther