Antes do Bloco Partir

quero te ver sorrindo
cantarolando meu samba enredo
dançando feito maré
amando sem dor no peito

pulando meu carnaval e
sujando meu fevereiro
enganando-me todos os dias
lambuzando-me o corpo inteiro

tecendo meu chão a pé
e a boca tão fina trança
do jeito que canso teu dia
tombarei contigo, criança

. Ícaro Uther

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Cratera Vazia ou Como as pessoas se perdem no meio da vida

Aquele asteroide que prometera nos dizimar finalmente estava a caminho. Te vi – bem distante, até – segurando uma mão que não era a minha e derramando uma lágrima que não era de açúcar. Meio fora de tom?

O certo é que não sabíamos direito o que fazer. Os desesperados já tinham perdido aquela adrenalina corriqueira e a reza tornara-se baixinha. Quase um sussurro, aliás. Meio sem fé, sabe?

Meu mundo estava em ruínas desde o dia que você me olhou com aquele sorriso de canto de boca e soltou um talvez. Portanto, o que aconteceria ou deixaria de acontecer por causa da distância que tomamos um do outro não importava mais. Era sem sal. Quase um sussurro, aliás. Era um pedido meio reza, sabe? Aquilo que eu pedia nas noites anteriores – que era para ter você aqui – não poderia mais acontecer por causa da maldita pedra que estava caindo do céu. Fuck you, NASA.

E já era tempo mesmo de acabar com tudo, você sabe. Perdeu a graça e a cor. Perdemos o sorriso e o fim da piada – a mesma que eu contava para você antes de dormirmos – e os deuses já tinham nos abandonado. Você já tinha me abandonado. Posso fazer essa analogia porque te considero uma deusa, lembre-se.

Enquanto você está parada olhando para o céu, sentindo a terra tremer e cantarolando uma oração, eu estou aqui te observando de longe e lamentando porque não poderei te reconquistar. Não poderei mais quebrar tua solidão. Não poderei sequer me desculpar pelo texto que escrevi narrando toda essa situação patética.

Ele se aproxima cada vez mais. Podemos sentir. Vê? É o fim. Só isso. Morreremos sem sermos heróis e sem nosso nome gravado na história. Ainda bem! Já que a partir de agora a história não existirá mais. Já que a partir de agora não existiremos mais.

. Ícaro Uther

Uma carta para a minha ex-sempre-namorada

Hoje, sentado na varanda da minha casa me lembrei de uma ex namorada minha. Ou de todas. Pensativo, cultivei em mim todas as saudades que elas ainda me cedem e resolvi sorrir com isso. Como sempre faço quando lembro de como é gostar de alguém.

Hoje talvez exista outro cara dividindo a cama contigo, contando as mesmas piadas que eu te contava e mordendo o lóbulo da sua orelha – ainda se morde lóbulos de orelha? Na verdade, eu sei que existe, mas só quis criar uma hipótese para parecer mais descolado. De qualquer forma, só espero que ele saiba o quão você gosta de café, e assim, apreciar o charme que é você segurando a xícara com as duas mãos como se estivesse protegendo a Rainha da Inglaterra. Espero também que ele tenha noção de como você não gosta quando te mordem muito forte. E, claro, que ele saiba como você gosta de fazer sexo em lugares inusitados. Quer dizer, acho que essa parte ele nem precisa saber.

Talvez, se hoje eu te conhecesse de novo, ficaria contigo mesmo se você fumasse dois maços de Derby. Por dia. Não porque eras linda e me chupava com aquele olhar de “te devoro”, mas porque depois de viver um pouco enalteci as qualidades que você tinha. Coisas da vida. Que, como sabes, não me arrependo. Eu tinha que viver, viajar e me despertar à vida. Você sabe que era o melhor pra mim e, esse respeito que você teve pelo meu momento é, com certeza, um dos meus maiores motivos de orgulho de ter sido teu namorado.

Por mais que eu não tenha pintado a bunda de vermelho e declamado nosso amor em rede nacional, saiba que, no auge das minhas poucas palavras você pintou de mão colada comigo um pouco da minha história. Espero que lembres de mim como lembro de ti, dos detalhes, das viagens e, claro, das roupas e sapatos que eu tanto reclamava. Lembra como eu era pentelho? Eu mudei um pouco, mas admito, continuo achando pés algo de seres de outro planeta. E sim, também continuo achando que uma minissaia perde seu charme quando o intuito é convencer alguém, somente com aquilo, que ali existe um mulherão.

E, acredite se quiser, ainda guardo todas as nossas fotos. Não por algum motivo especial, ou por devaneio louco, mas porque acho gostoso lembrar das nossas histórias e pontuá-las como fases necessárias em uma vida de momentos tão felizes. Espero que guardes também. Mas, se não o fizer, pelo menos não as jogue fora, revelei todas com tanto carinho…

Então, hoje no auge do meu pouco afeto, te digo: nunca vou te esquecer. Até porque não tenho problema de memória. Você me ensinou tanta coisa, a ser um homem mais sorridente e feliz por curtir os pequenos prazeres da vida. Queria ter curtido mais você, confesso, ter lhe dado mais atenção e me preocupado menos com o trabalho. Mas talvez, esse texto seja um pouco do que eu tanto quis pra mim. Espero que estejas com orgulho de mim.

Saiba que meu beijo continua doce, meu sorriso espraiado e meu puxão de cabelo com a mesma firmeza de sempre – dizem. E como sei que você gostaria de saber: sim, ainda durmo rente a parede e ocupo metade da cama. Ainda gosto do frio e ligo o ar no mais gelado só para camuflar-me por baixo das cobertas. Ainda falo gesticulando com as mãos e gosto de brincar de lutinha todos os domingos de manhã. E, claro, ainda pareço uma criança quando fico doente.

Eu que sempre fui poeta da minha própria vida, espero sempre guarda-te na estante dos meus melhores feitos. E, que ao final desse texto, você sorria. Sem medo de eu estar te vendo. Só sorria com simples objetivo de saber que os nossos momentos serão sempre nossos. A gente foi um sonho que passou, mas seremos sempre uma lembrança-sorriso dentro dos nossos, um dia juntos, corações.

. Frederico Elboni

Antes do Sol Virar Esquinas

 

perco o sono lembrando

da sonoridade do teu nome

e de todas as rimas que

poderíamos fazer, gargalhando

nos tempos que só existia

nosso tom no mundo

 

– agora

 

rabisco fechado um som bem profundo

de melancolia e saudade que

só teu sobrenome carrega

 

. Ícaro Uther

 

Sobre Gatilhos e Espelhos

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Em algum ponto dentro dos próximos segundos ele estará sem vida. Encara o espelho, checa novamente o cano enferrujado e as paredes úmidas. Ali não existe luz no fim do túnel, harpas pitorescas ou algo extraordinário que faça com que mude de ideia.

A linha final já foi escrita e não há nada possível de ser feito para que os olhos fiquem. Mão pesada. Para que tudo acabe sem frio na espinha ou com louças manchadas. A respiração ofegante acalenta a escuridão iminente e a mão – pesada? – percorre o caminho oposto, mirando a casa, sem espelho e sem louças e sem cantigas baratas, que agora ecoam: beira de estrada.

A vista não avista fim de trilha; a mão não tem mais solidão e as pessoas carregam em si um sorriso demente. O suor escorre na ponta do cabelo e os calafrios não querem descansar. A boca seca derrete a estrada pro mar.

Não existe cedo, espaço, razão ou qualquer outro sentimento que fizesse com que os sentimentos aflorassem novamente. Não existe mais tempo, existe? No meio do meio termo o tempo ruiu!

Orácio partira antes dos seus pensamentos. Aquietou-se e acordou segundos depois para morrer novamente.

. Ícaro Uther

Trem das Três

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Vou levantar carícias,
embalar segredos e
sonegar torpores.

Fazer da calma fé e valsa.
Fazer minh’alma quieta e rasa.
Fazer do frio só coração.

Vou embarcar num trem cargueiro,
apertar tua mão, sentir teu cheiro
e abraçar tua ânsia
me dizendo adeus todas as noites.

. Ícaro Uther