Ellipsism

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Desde que kairosclerosis surgiu na tela eu fiquei jouska que só e percebi o quão difícil deve ser criar uma nova palavra. Aquela sensação que sobe o âmago e embebeda a língua já tem nome? Deve ter, né!?

Eu que deveria tatuar na carne lethobenthos e inventar uma palavra para descrever o quão maravilhoso era a cena de te ver sorrir com o canto da boca, enquanto pressionava levemente os olhos e abaixava a cabeça em direção ao meu peito.

Liberosis, enfim. Ânsias e noites sem fim. Kairosclerosis é até simples, eu sei: é o momento em que você percebe que está feliz – e tenta conscientemente aproveitar essa sensação – o que obriga seu intelecto a identificar e colocar a sensação em um contexto, onde a felicidade lentamente se dissolve até se tornar pouco mais do que um retrogosto. Mas retrogosto não desce. Que palavrão.

. Ícaro Uther

Circo em Branco e Preto

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o palhaço está triste, ele disse
ele disse que o palhaço, mesmo triste,
põe a máscara e rouba a cena, ele disse

eu disse que o palhaço triste
com o nariz em riste, pintando vermelho
diante do espelho, deixa dispersar

se disse, vendo deste lado, triste
do palhaço triste ser palhaço
e ter que atuar

eu disse que o sorriso falha
e o palhaço tarda, pois,
atrás da cortina existe outro espetáculo

. Ícaro Uther

Cratera Vazia ou Como as pessoas se perdem no meio da vida

Aquele asteroide que prometera nos dizimar finalmente estava a caminho. Te vi – bem distante, até – segurando uma mão que não era a minha e derramando uma lágrima que não era de açúcar. Meio fora de tom?

O certo é que não sabíamos direito o que fazer. Os desesperados já tinham perdido aquela adrenalina corriqueira e a reza tornara-se baixinha. Quase um sussurro, aliás. Meio sem fé, sabe?

Meu mundo estava em ruínas desde o dia que você me olhou com aquele sorriso de canto de boca e soltou um talvez. Portanto, o que aconteceria ou deixaria de acontecer por causa da distância que tomamos um do outro não importava mais. Era sem sal. Quase um sussurro, aliás. Era um pedido meio reza, sabe? Aquilo que eu pedia nas noites anteriores – que era para ter você aqui – não poderia mais acontecer por causa da maldita pedra que estava caindo do céu. Fuck you, NASA.

E já era tempo mesmo de acabar com tudo, você sabe. Perdeu a graça e a cor. Perdemos o sorriso e o fim da piada – a mesma que eu contava para você antes de dormirmos – e os deuses já tinham nos abandonado. Você já tinha me abandonado. Posso fazer essa analogia porque te considero uma deusa, lembre-se.

Enquanto você está parada olhando para o céu, sentindo a terra tremer e cantarolando uma oração, eu estou aqui te observando de longe e lamentando porque não poderei te reconquistar. Não poderei mais quebrar tua solidão. Não poderei sequer me desculpar pelo texto que escrevi narrando toda essa situação patética.

Ele se aproxima cada vez mais. Podemos sentir. Vê? É o fim. Só isso. Morreremos sem sermos heróis e sem nosso nome gravado na história. Ainda bem! Já que a partir de agora a história não existirá mais. Já que a partir de agora não existiremos mais.

. Ícaro Uther

Sobre Gatilhos e Espelhos

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Em algum ponto dentro dos próximos segundos ele estará sem vida. Encara o espelho, checa novamente o cano enferrujado e as paredes úmidas. Ali não existe luz no fim do túnel, harpas pitorescas ou algo extraordinário que faça com que mude de ideia.

A linha final já foi escrita e não há nada possível de ser feito para que os olhos fiquem. Mão pesada. Para que tudo acabe sem frio na espinha ou com louças manchadas. A respiração ofegante acalenta a escuridão iminente e a mão – pesada? – percorre o caminho oposto, mirando a casa, sem espelho e sem louças e sem cantigas baratas, que agora ecoam: beira de estrada.

A vista não avista fim de trilha; a mão não tem mais solidão e as pessoas carregam em si um sorriso demente. O suor escorre na ponta do cabelo e os calafrios não querem descansar. A boca seca derrete a estrada pro mar.

Não existe cedo, espaço, razão ou qualquer outro sentimento que fizesse com que os sentimentos aflorassem novamente. Não existe mais tempo, existe? No meio do meio termo o tempo ruiu!

Orácio partira antes dos seus pensamentos. Aquietou-se e acordou segundos depois para morrer novamente.

. Ícaro Uther

Nena

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Perdi minha vó/mãe/nena.

O ano estava iniciando, as esperanças se renovando e a casa estava alegre com acontecimentos presentes e projetos futuros.

Lembro-me de passar a virada de ano deitado no seu colo, no sofá da sala, assistindo um programa qualquer na televisão e conversando ladainhas noite adentro. Nunca antes – após a adolescência – eu tinha ficado em casa na hora da virada. Foi especial. Único.

Especial também a maneira como ela lidava com os problemas da vida: sempre atenta para resolver quaisquer tipos de imbróglios de todos que ela fazia questão de aquecer nas suas asas. Ela era o Norte que nos guiava. Era a mulher que me ligava – sagradamente – todos os dias, segundo ela: só para ouvir minha voz e saber se eu estava bem.

Nunca imaginei que um coração pudesse doer tanto, com tantas dores que já senti e até perdi a conta! Ver minha mãezinha ali, imóvel, sem responder ao meu abraço, destruiu-me de uma maneira que ainda estou entorpecido perdido nesse mundo sem cor e sem melodia.

As lágrimas escorrem sem hora marcada. Sem previsão. A solidão abraçou-me com uma força descomunal e tentou me jogar no chão quando vi seu túmulo pela primeira vez. Como pode uma vida, vívida e lúcida, acabar embaixo de uma pedra de mármore?

Mas, assim… Acabar? Creio que não. O tempo – tal qual Quintana bradou – não pára! Só a saudade que faz as coisas pararem no tempo.

. Ícaro Uther

Antes do Sol Nascer

A escada estava vazia. Cinza. Fria e em absoluto silêncio. Ela já tinha partido e o que ficou na memória foi o sorriso de canto de boca, assim, meio triste e cansado. Talvez fosse um cansaço acumulado. Um relacionamento pesado sendo carregado há um bom tempo.

Acendi um cigarro, fechei os olhos e enquanto bronzeava o pulmão todo aquele filme passou pela minha cabeça. Um ar melancólico tomava conta do ambiente que ainda estava com resquícios daquele perfume que encantava meu olfato e me deixava com vontade de sentir o aroma ali de pertinho, no canto do ouvido, sussurrando alguma besteira qualquer para que o sorriso de canto de boca aparecesse novamente.

Senti-me sozinho e meu coração gritava essa palavra que amarga a boca e cerra os dentes: solidão. Nuvem negra e impiedosa que cai pesada e alastra-se feito fera e fere todos os sentidos que nem sequer imaginávamos que poderiam doer, mas doem. É uma dor inexplicável, que vem do âmago e nos destrói aos poucos.

A madrugada vem atenta e a insônia cuida de manter-me com uma aparência ébria e desleixada. A barba por fazer, o café por esfriar e o coração a pulsar pensando que poderíamos estar ali, bem querer, e fazer daquele cantinho nosso lar.

Não rasguei nenhuma foto tua, vês? Ainda acho teus cabelos nos cantos do chão e tuas lembranças espalhadas pela mesa. Volta e pega alguma coisa, faz algum gesto com a cabeça; olha nos meus olhos e diz que me ama. Pede para que eu não desapareça. Se não pedir, fica só mais um pouco, me conta como está a vida lá fora e quando for embora, não se esqueça de voltar e me fazer feliz de novo.

. Ícaro Uther