
Acordei cedo naquela manhã. Procurei ainda sonolento por minha camisa. Vesti-a. Segui cambaleando até o banheiro. Encarei meu rosto no espelho enquanto a torneira desperdiçava alguns litros d’água. Não consegui encarar meu fantasma no espelho.
Olhei pelo reflexo e vi que seu lado da cama estava vazio. Nem sequer um amassado no lençol. Acordou mais cedo hoje, logo pensei. Segui para a cozinha e não senti o cheiro do café fresco. Só ouvia um silêncio devastador por entre os cômodos e nada de você aparecer.
Esperei mais um pouco, vi qualquer coisa na televisão e imaginava o que poderia estar acontecendo ao redor do mundo e dentro da sua cabeça. Várias lembranças surgiam enquanto eu sorrateiramente mudava de canal.
Respirei fundo e senti ao longe um resquício do seu perfume favorito. Empolguei-me e um sorriso tratou logo de aparecer me fazendo mostrar os dentes. Procurei por você novamente. Chequei em cada cantinho procurando por aquele frescor angelical. Não era você. Não era ninguém.
Onde está você, pequena? Sei que não foi trabalhar assim, tão cedo. Me adandonou? Creio que não… Todas as ruas roupas estavam ali, arrumadinhas e organizadas. Onde está você, pequena?
Procurei por você pela terceira vez. Chequei novamente cada canto da casa e aquele silêncio já se transformava em dor e desespero. Onde está você, pequena? Olhava por entre a janela para ver se deixara algum rastro antes de partir. Partir por que, pequena?
Na quarta vez eu simplesmente desabei. Só tive forças para olhar uma foto nossa embaçada na parede. Fiquei ali quietinho – feito criança – e uma teimosa lágrima manchou o chão. Daquela lágrima surgiram mais e mais e o chão ficava cada vez mais borrado.
- Onde está você, pequena?
- Estou aqui, meu bem. Respondeu uma voz serena e acolhedora.
- Aqui onde? Perguntei ainda com os olhos cerrados de agonia.
- Aqui… Ao seu lado, para todo o sempre. Agora durma.
Acordei cedo naquela manhã. Procurei ainda sonolento por minha camisa. Vesti-a. Segui cambaleando até o banheiro. Encarei meu rosto no espelho e senti suas mãos quentes nas minhas costas e seu beijo doce no meu rosto. Desejou-me um bom dia e sorriu. Partiu e fez isso comigo todas as vezes que pôde. Seu fantasma não me abandonará nunca.
. Ícaro Uther


12 janeiro, 2012 no 6:40 pm
Impressionantemente lindo!! Parabéns ikinho!!
13 janeiro, 2012 no 3:49 pm
Singelo e singular…
13 janeiro, 2012 no 6:02 pm
Muito lindo, poucas palavras, texto pequeno e repleto de emocoes, lindo parabens meu anjo.