Posts de Maio, 2009
Maio 14, 2009

Chove intensamente, vagarosamente a balsa passeia pelo cais do Rio Parnaíba. Tudo está tão diferente… O sonho de ter um bom final de vida está distante agora.
O Sol está escondido entre as fortes nuvens que aparecem ao entardecer. Orácio recolhe os poucos peixes que conseguira pescar. Mias ao longe, Jeosá recolhe as redes. O Rio, apesar de muito cheio, não fornece uma farta alimentação para os dois.
Caminhando em meio a poças de lama, voltam ao abrigo. Suas casas foram tomadas pela água, juntamente com centenas de outras famílias.
Um ambiente fétido, porém silencioso. Faces envoltas de um pânico sobrenatural, nada subversivo para esta hora. Sem nenhum tipo de saneamento nem paz.
Muitos são os corpos cobertos encostados em uma parede. A água fornecida é totalmente imunda e as larvas e bactérias fazem dela seu reino.
Orácio, pálido de fome e frio, faz suas últimas preces para aquilo que estava escrito desde o começo do inverno. Jeosá, com a camisa ensopada por lágrimas, preparava o lençol que iria cobrir o corpo. As famílias, assustadas, pouco a pouco levantam-se e atiram os entes que irão descansar no fundo do Rio…
. Ícaro Uther
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Maio 6, 2009
“O adolescente não vislumbra a possibilidade do erro.”

Na semana que antecede o dia das mães, pretendo escrever (desabafar) a respeito de uma incômoda idéia, dessas que ficam atravessadas durante semanas, atrapalhando a organização dos pensamentos, implorando para materializar-se enquanto texto. Idéia que não resultará em cartões coloridos. Em agrados e mimos. Em palavras de amor.
Mães reunindo-se em grupos de apoio. Mães apoiando mães. Mães de filhos-apenas-saudade. Mães derrotadas diante de meninos mortos. Mães de filhos-apenas-lembrança. Mulheres sozinhas e confusas. Assimilando os porquês de tamanha aflição.
O adolescente não entende que, ao arriscar-se, é a vida dos pais que também está em jogo. O adolescente não vislumbra a possibilidade do erro. E ao errar, exaure a mãe em um inferno-turbilhão de desespero. Cabe ao pai (o macho racional indestrutível), juntar os cacos daquela família arrasada pela fatalidade. Bem sabe ele que o serviço é inútil. Nada será capaz de substituir o pedacinho que se foi para sempre.
E o pedacinho que se foi para sempre passava as noites com os amigos (pedacinhos que também se foram para sempre) praticando um estranho jogo de xadrez com a morte. Egocêntrico, não enxergava o vigor da adversária. Sem capacete, alcoolizado e em alta velocidade alumiava-lhe a possibilidade da vitória. De repente: xeque-mate. O reizinho está morto.
E quantos eufemismos diante da mãe! Quanta gritaria durante o velório! Por quê? Se era tão jovem. Por quê? Se era imortal. Por quê? Se sabia exatamente o que estava fazendo. Por quê? Se nada poderia atingi-lo. Por quê? Se agora apenas sombra. Apenas pó. Apenas nada.
Numa tentativa desesperada, mães agarram-se a mães. Chegou a hora de elaborar o luto. Para isso há páginas na internet. Programas de televisão. Grupos religiosos. Há mães compartilhando a experiência dolorosa em praças e auditórios. O problema é que o diálogo é restrito. Entendem o sofrimento umas das outras, mas não entendem o papel da família nesse processo. São capazes de amparar, enquanto nova tragédia constrói-se em suas próprias casas.
Sonho com o dia em que um grupo de adolescentes interditará a Frei Serafim. Faixas e cartazes chamando a atenção de tantos outros adolescentes. Alguns ficarão espantados. Afinal, não são mães chorando a perda dos filhos. São os próprios filhos anunciando: não nos perderemos mais.
. Ajosé1150
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Maio 5, 2009

Fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer…
E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei…
O amor é quando a gente mora um no outro.
. Mário Quintana
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